30 mar 2026

Hub LAC lança mapeamento inédito que identifica quem produz e como se utiliza Evidências para Políticas Públicas na América Latina e no Caribe

Webinário realizado em 24 de março celebrou o lançamento do mapeamento do ecossistema de evidências regional. O mapeamento contou com 123 respondentes e ressaltou a força majoritária de representantes da América do Sul, principalmente Brasil e Colômbia. 

Assista aqui ao evento de lançamento

Foi lançado na terça (24/03), o relatório “Ecossistema de Evidências na América Latina e no Caribe: Mapeamento do HubLAC para Fortalecer Políticas Informadas por Evidência”, durante evento virtual promovido pelo Hub de Evidências da América Latina e do Caribe (HubLAC), rede da qual o Instituto Veredas faz parte.

A publicação apresenta um panorama inédito sobre quem são, onde estão e como atuam os principais atores envolvidos na produção, síntese e uso de evidências para a formulação de políticas públicas na região. O mapeamento também revela desafios estruturais e oportunidades de colaboração para fortalecer esse ecossistema.

Acesse e faça o download do relatório

Um esforço coletivo para conectar evidências e decisões

O Hub LAC surgiu em 2021 a partir da necessidade de articular uma rede regional capaz de aproximar pessoas, organizações e iniciativas comprometidas com a tomada de decisão informada pela melhor evidência disponível. Como destacou Daniel Patiño, integrante da direção do Hub LAC, a iniciativa do mapeamento reconhece o papel central de indivíduos e instituições nesse campo. “Esse trabalho mostra quem são esses atores, que tipo de trabalho desenvolvem e como se conectam. É um esforço para entender como podemos colaborar e como estão avançando nossos esforços”, afirma.

A diretora-executiva do Veredas, Ingrid Abdala, que também integra a coordenação do HubLAC, reforçou o propósito estratégico da publicação. “Essa publicação visa mapear os atores que dão forma ao uso de evidências e formulação de políticas na América Latina e Caribe, gerando conhecimento que fortaleça as alianças do Hub e orientem as prioridades que conectam o ecossistema regional”, completa.

Tendências globais em Políticas Informadas por Evidências (PIE) e o papel das redes colaborativas

Além do lançamento da publicação, o Hub LAC organizou um painel com convidadas internacionais para discutir as tendências no campo das PIE e a força do trabalho das redes colaborativas. 

 Karla Soares-Weiser (Cochrane)
Rhona Mijumbi (AEN)

O debate foi mediado por Shelly-Ann Hunte, do Caribbean Centre for Health Systems Research and Development – Trinidad y Tobago, e que representa o Hub LAC no Caribe. Um dos pontos centrais do debate foi a necessidade de ampliar o impacto da evidência para além do meio acadêmico. Shelly destacou que o objetivo é gerar conhecimento com impacto real. “Buscamos melhorar o processo de uso de evidências para apoiar decisões não só no âmbito acadêmico, mas também no âmbito global. Queremos oferecer insights para quem cria políticas”, afirma.

Um ecossistema distribuído, baseado em confiança e colaboração

A construção de um ecossistema regional mais conectado, diverso e confiável foi outro eixo central do evento. Para Karla Soares-Weiser, diretora-executiva da Cochrane, o desafio está na governança, em não centralizar, mas sim distribuir capacidades. “O desafio não é ser um sistema centralizado, mas um ecossistema distribuído. Assim, a evidência não deve ser produzida em um único lugar, mas sim coproduzida em diferentes regiões, mais próxima dos processos de decisão e das comunidades afetadas”, avalia.

Ela também destacou a importância da sustentabilidade — não apenas financeira, mas baseada em colaboração, compartilhamento e resposta às necessidades das(os) usuárias(os) finais: “E eu sempre penso em um provérbio africano: ‘se você quer ir rápido, vá sozinho; se quer ir longe, vá acompanhado’. A questão não é se podemos construir um ecossistema vivo de evidências, mas se conseguimos trabalhar de forma diferente para tornar isso possível”, complementa.

 John Lavis (McMaster Health Forum/ESIC)

John Lavis, diretor do McMaster Health Forum (Canadá) e conselheiro da ESIC (Evidence Synthesis Infrastructure Collaborative) que enviou um vídeo para contribuir na discussão do painel de abertura do evento faz eco à percepção de Karla Soares-Weiser. Ele também valoriza o compromisso com o impacto coletivo e reconhece que “líderes da América Latina e do Caribe têm realmente impulsionado essa abordagem” e espera que a região assuma cada vez mais papéis de liderança no ecossistema.

Rhona Mijumbi, presidenta da rede de evidências Africa Evidence Network, reforça a necessidade de fortalecer o ecossistema: “A questão já não é apenas se existe boa evidência, mas se temos instituições, incentivos, relações, capacidades, padrões e normas que permitam que essa evidência chegue à tomada de decisão de forma oportuna e confiável”

Ela aponta alguns caminhos para avançar após o mapeamento, como corrigir lacunas de representação — inclusive com uma abordagem multilíngue —, compreender melhor as relações entre os atores e fortalecer conexões no ecossistema: “O desafio não está apenas na produção de conhecimento, mas na sua conversão em uso, o que exige investimento em intermediação, tradução e construção de confiança.”

O relatório aponta, por exemplo, que 84,5% das organizações atuam como produtoras de evidência, enquanto 64,2% também exercem o papel de intermediárias na tradução desse conhecimento para a tomada de decisão.

Barreiras institucionais e desafios regionais

Apesar dos avanços, o mapeamento evidencia obstáculos importantes. Entre eles, a dificuldade de acesso a dados, barreiras institucionais individuais, além de limitações de financiamento e desafios políticos que afetam a incorporação da evidência nas decisões públicas. Entre as barreiras no nível individual, o relatório destaca a incorporação tardia de perfis especializados e a falta de capacitação adequada leva à sobreposição de funções nas equipes.

Rhona Mijumbi destacou que o problema não é apenas ter evidência, mas garantir condições para seu uso. “Não se trata apenas de ter evidências, mas de ter treinamento e condições para que elas possam fluir”, avalia ao enfatizar a necessidade de inclusão e equidade no ecossistema — tanto em relação às pessoas quanto aos tipos de conhecimento considerados.

Silvia Villatoro, da Universidade de Antioquia e Hub LAC, destaca que, no nível organizacional, o financiamento de curto prazo é um dos grandes desafios, pois gera instabilidade, dificultando a continuidade das equipes e o planejamento de longo prazo. Além disso, o desalinhamento entre tempos institucionais e políticos, somado a processos burocráticos lentos, compromete a relevância das evidências.

Evidências conectadas às realidades locais

David García, da Universidade de Antioquia e Hub LAC, que também é um dos autores do relatório, destaca a visão sobre as diferentes relações dentro do ecossistema: “A forma como a evidência é produzida, traduzida e circula também é fortemente mediada pelas diferentes relações entre as pessoas e o ecossistema na América Latina. Por isso, organizamos os resultados em três níveis: individual, organizacional e político-social”

O mapeamento mostra que o uso de evidências na região ocorre, em grande parte, por meio de arranjos colaborativos entre governo, academia e sociedade civil. Experiências analisadas indicam que a evidência é mais efetiva quando construída coletivamente e adaptada a contextos específicos.

Raquel Cerqueira, do Hub LAC, destacou que as fontes de informação utilizadas são predominantemente científicas, estatísticas e dados legais, porém, a pesquisa na região também absorve textos e fontes de conhecimento populares e tradicionais. “Isso é especialmente importante na América Latina e no Caribe, onde a diversidade exige abordagens mais contextualizadas, e a integração desses diferentes saberes contribui para análises mais ricas e respostas mais conectadas às realidades locais”, avalia.

Próximos passos

O relatório se apresenta como uma “fotografia” inicial do ecossistema. O principal objetivo é facilitar o diálogo e o aprendizado mútuo entre as pessoas da rede, criando um espaço em que seja fácil saber quem é quem, além de conectar e colaborar. Entre os próximos passos, estão a ampliação das redes, o fortalecimento de alianças para financiamento e o desenvolvimento de estratégias para tornar a evidência mais acessível e útil para tomadores de decisão

> Acesse o relatório completo aqui

Assista ao lançamento:

Comunicação Hub LAC