Histórias de Mudança: Inteligência artificial para a produção de evidências: a experiência da Evidencia UC no Chile

Introdução

Nesta História de Mudança, conversamos com Luis Ortiz, coordenador da equipe Evidencia UC da Faculdade de Medicina da Pontifia Universidade Católica do Chile. A equipe da Evidencia UC está vinculada principalmente à Cochrane Chile no que se refere às diretrizes para a realização de sínteses de evidências. Ao longo de sua trajetória, participou do apoio a diferentes atores na produção e disponibilização de evidências para subsidiar a tomada de decisão, como a Organização Mundial da Saúde (OMS) e a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS). Além disso, desenvolve atividades dentro da universidade, apoiando diferentes equipes quando necessitam de evidências para seus projetos ou para a tomada de decisões clínicas no hospital universitário.

Pontos-chave:

  • A trajetória da Evidencia UC no uso de inteligência artificial para a produção de evidências.
  • Um caso prático de aplicação de IA em um projeto de síntese para políticas públicas.
  • As mudanças geradas nos processos de busca, sistematização e produção de evidências.
  • Reflexões sobre supervisão humana, transparência e uso responsável da IA.

Acesse a entrevista completa em nossa playlist no YouTube.


Contexto e desafios

A equipe da Evidencia UC explora o uso de ferramentas de inteligência artificial há vários anos, inclusive antes da popularização dessas tecnologias. Sua proximidade com a plataforma Epistemonikos, surgida dentro da própria equipe quando ela ainda se chamava ProSABE, também fortaleceu sua experiência no uso de IA para a busca de evidências.

Ao longo do tempo, diferentes ferramentas foram incorporadas em distintas etapas da síntese de evidências, sempre com supervisão humana, especialmente nos primeiros anos, quando as capacidades dessas tecnologias ainda estavam abaixo do padrão humano.

A síntese de evidências com inteligência artificial: um projeto piloto e seus aprendizados coletivos

Em 2025, um projeto liderado pela equipe de Medicina Familiar da UC foi selecionado em uma chamada do Centro de Políticas Públicas da UC para desenvolver propostas voltadas ao fortalecimento das ações preventivas na atenção primária à saúde no Chile. O estudo buscava enfrentar a lacuna existente entre os processos de rastreamento e o acompanhamento dos pacientes identificados, combinando trabalho de campo e revisão das evidências disponíveis.

Para apoiar essa segunda etapa, a equipe da Evidencia UC foi incorporada ao projeto. Diante do tempo limitado e das restrições de recursos humanos e financeiros, optou-se por desenvolver um documento de síntese fortemente apoiado por inteligência artificial. A proposta metodológica não buscava substituir as pessoas, mas manter a supervisão humana em todas as etapas e reorganizar o processo tradicional de síntese para torná-lo mais eficiente.

Luis explica o processo da síntese em sete etapas com o uso de ferramentas de IA:

Etapa 1 — Formulação da pergunta e dos critérios de elegibilidade

Etapa 2 — Busca de “artigos-semente”

Etapa 3 — Expansão por citações

Etapa 4 — Estratégia de busca em bases de dados eletrônicas

Etapa 5 — Triagem assistida por IA

Etapa 6 — Triagem humana

Etapa 7 — Extração de dados e síntese

Em termos de validação dos processos, a equipe desenvolveu uma planilha de trabalho chamada VERIFICA, em que cada letra corresponde a uma etapa de verificação dos resultados produzidos pela IA. O primeiro passo é verificar se as referências são reais — algo tão simples quanto clicar na referência fornecida e conferir se ela leva ao artigo correspondente. Em seguida, é necessário verificar se esse artigo possui uma versão mais atualizada, já que algumas ferramentas podem ter sido treinadas com conjuntos de conhecimento mais antigos.

“Classificar uma ferramenta como melhor ou pior é muito difícil, porque uma ferramenta pode ter um corpo de conhecimento mais limitado, mas acadêmico, e funcionar melhor do que outra com uma base muito mais ampla, porém não acadêmica. Sempre vai depender da base de dados que elas analisam”, explica Luis.

Principais mudanças e avanços decorrentes da experiência

Segundo Luis, um dos principais benefícios dessa abordagem foi a redução significativa dos tempos de trabalho. Enquanto um resumo para políticas públicas costuma levar entre três e seis meses para ser produzido, esse tipo de síntese exploratória apoiada por inteligência artificial pôde ser desenvolvido em apenas quatro semanas.

A experiência também permitiu incorporar novas ferramentas em projetos posteriores. Em uma revisão encomendada pela OMS, por exemplo, a inteligência artificial foi utilizada para ampliar a busca de evidências em um tema particularmente complexo, no qual era muito difícil construir uma estratégia de busca, já que os manuscritos estavam indexados de maneiras diferentes nas bases de dados.

Embora o padrão internacional para sínteses de evidências continue sendo a revisão tradicional com dupla avaliação humana, Luis destaca que essas ferramentas de contexto têm se mostrado especialmente úteis para ampliar as buscas e localizar estudos mais difíceis de encontrar.

Cuidados éticos e supervisão humana

Luis destaca que uma das principais precauções adotadas foi complementar o uso da inteligência artificial com buscas e processos de triagem tradicionais. Essa estratégia permitiu identificar artigos que não haviam sido encontrados pelas ferramentas de IA e aumentar a confiança de que documentos relevantes para informar a tomada de decisão não estavam sendo omitidos.

As sínteses realizadas exclusivamente com inteligência artificial ainda podem deixar de fora estudos importantes. Por isso, a abordagem adotada combinou as vantagens da IA com a supervisão humana em todas as etapas do processo, incorporando ciclos tradicionais de busca e revisão para minimizar o risco de omissão de evidências que poderiam influenciar decisões, especialmente no âmbito das políticas públicas.

“O básico é declarar o uso da IA. Em todas as nossas reuniões, em todas as entregas para os diferentes atores, nas reuniões de priorização, explicamos como era o processo e indicamos que ele era fortemente impulsionado pela inteligência artificial. Também deixamos claro que tivemos o cuidado de manter supervisão humana em todas as etapas.”

Mudanças de mentalidade e do ecossistema

Para Luis, a experiência representou uma mudança importante para a equipe, pois ajudou a reduzir as resistências em relação ao uso da inteligência artificial na síntese de evidências. O projeto demonstrou que essas ferramentas podem ser utilizadas de forma segura quando acompanhadas de supervisão humana, acelerando processos sem comprometer a qualidade do trabalho.

Além disso, ele ressalta que a experiência também está alinhada às mudanças que vêm ocorrendo em organizações como a Cochrane, que já promove iniciativas para avaliar o uso da inteligência artificial na atualização de revisões sistemáticas. Atualmente, alguns grupos têm a possibilidade de desenvolver revisões tanto por métodos tradicionais quanto com apoio de IA, permitindo comparar resultados e gerar evidências sobre o potencial e as limitações dessas ferramentas.

Por outro lado, Luis também destacou que o contexto institucional tem favorecido essa adoção, uma vez que atores como o Ministério da Saúde do Chile, a OMS, a OPAS e a própria Cochrane vêm explorando cada vez mais o uso da IA na produção e atualização de evidências. Nesse cenário, a equipe se sente hoje mais confortável em incorporar essas ferramentas em projetos tradicionais, aproveitando suas vantagens para complementar — e não substituir — os métodos convencionais de síntese de evidências.

Nesse ponto, Luis complementa:

“Embora seja uma iniciativa que surgiu dentro da equipe da Evidencia UC, o ambiente tem sido favorável e somos gratos por isso — por haver abertura para inovar, explorar, errar e tentar novamente. Neste momento em que tudo ainda é muito incipiente e cercado de dúvidas, se não começarmos a testar essas ferramentas, continuaremos com as mesmas incertezas. Precisamos resolvê-las em contextos reais.”

Fontes externas

Acesse os materiais de apoio desta História de Mudança:

“Uma visão coletiva para o futuro da ciência e da pesquisa na América Latina e no Caribe”: um workshop com novas propostas

O encontro, que será realizado no dia 2 de junho, promoverá o diálogo sobre o tema e marcará o lançamento da publicação impulsionada pelo Hub de Evidências da América Latina e do Caribe (Hub LAC) e pela Purpose & Ideas, com financiamento do International Development Research Centre (IDRC).

Como poderiam ser os sistemas de ciência e pesquisa da América Latina e do Caribe (LAC) no futuro? Como os atores envolvidos esperam que eles evoluam para contribuir com o bem-estar de pessoas e sociedades?

Com essas perguntas norteadoras, a pesquisa foi desenvolvida em um rico processo sequencial e participativo de consulta e co-criação, que incluiu mais de 80 representantes de governos, organizações da sociedade civil, universidades, meios de comunicação e think tanks de 22 países da região.

Acesse a publicação aqui (espanhol)

Contexto e metodologias

A América Latina e o Caribe (LAC) é uma região com enorme capacidade para a geração e o uso da ciência e da pesquisa, além de grande diversidade e riqueza de atores e uma trajetória de cooperação regional. Ao mesmo tempo, enfrenta pressões estruturais que podem limitar a autonomia e a relevância social da pesquisa na região.

Nesse sentido, refletir sobre o futuro desses campos — tanto o que já está em curso quanto o que ainda pode ser construído — é o que inspira este trabalho. Nutrida por movimentos que já se desenvolviam globalmente e em outras regiões, a Purpose & Ideas assumiu o desafio de projetar o horizonte futuro dos sistemas de conhecimento na América Latina e no Caribe, convidando o Hub LAC como parceiro na liderança regional, dada sua trajetória no mapeamento de atores e desafios relacionados à geração e ao uso de evidências nos contextos locais.

“Acho que foi muito forte o componente da necessidade de voltar ao local, de aterrissar o que significa um sistema para os cidadãos de cada comunidade. Os participantes, e sobretudo os jovens, se perguntaram para que servem realmente a ciência e a pesquisa. Há o desejo de colocar novamente as pessoas e o planeta no centro e resolver problemas específicos de cada comunidade, com a participação dessas comunidades. Também exploramos como articular esses circuitos de conhecimento locais com os nacionais, os regionais e os globais, partindo sempre do comunitário, do concreto e do territorial”, reflete Vanesa Weyrauch, pesquisadora e diretora da Purpose & Ideas.

Workshop colaborativo — Conferência CLACSO (Junho de 2025)

A trajetória da pesquisa partiria de um evento presencial no âmbito da Conferência CLACSO em junho de 2025, mas também foi identificada a necessidade de não apenas projetar o futuro, mas também resgatar a história e a trajetória de nossa região nesses sistemas de ciência e pesquisa. Foram ainda elaborados workshops virtuais participativos para promover a iteração com grupos diversos do ecossistema. Além disso, um grupo de jovens foi convidado para, além de contribuir com o workshop, organizar eles próprios a dinâmica.

oficinas virtuais

Sementes do futuro: Histórias de Mudança da região

No processo de pesquisa do estudo, já se notavam algumas tendências e atributos do futuro, como relata Gabriela Oberlander, pesquisadora do projeto:

“Tanto na revisão da literatura quanto nas consultas, surgiram tendências e inovações que já sinalizavam por onde vinham as sementes — mostrando o papel da tecnologia e do comunitário, a vinculação entre fundos universitários, laboratórios e o setor privado, e as comunidades digitais como forma inovadora de circulação do conhecimento na América Latina. Também rastreamos a arte como uma linguagem distinta dentro desses sistemas.”

A publicação também mapeia e apresenta oito histórias de mudança que representam as “sementes do futuro”: iniciativas que estão gerando diferentes tipos de inovação ou transformação nos sistemas, vinculadas aos atributos identificados. Algumas sementes foram mapeadas e outras se candidataram, mas buscou-se incluir diversidade geográfica, temática e de tipo de atores.

“Para o Hub LAC, que fomenta o ecossistema de evidências da região, foi muito importante aprender com experiências de co-produção de conhecimento entre cidadãos, pesquisadores e tomadores de decisão. Usar a tecnologia de forma ética para potencializar essas colaborações a partir de necessidades reais dos territórios é um desafio que continuaremos explorando ao longo de 2026”, destaca Laura Boeira, diretora do Hub LAC e coautora da publicação.

Atributos dos sistemas de ciência e pesquisa do LAC no futuro

Uma grande contribuição desenvolvida tanto nos workshops quanto nas sementes foi a caracterização dos atributos do sistema regional de ciência e pesquisa, que fundamentam o alcance da visão compartilhada:

  • A serviço das comunidades e dos territórios
  • Soberanos e capazes
  • Colaborativos, abertos e conectados regional e globalmente
  • Reflexivos, inclusivos e equitativos
  • Tecnológicos, mas éticos e críticos

Sobre o workshop

A proposta do workshop — “Ventos de mudança: as sementes da transformação dos sistemas de pesquisa no LAC” 🍃 — é apresentar essa visão e convidar os participantes a dinâmicas criativas, trocas e conversas abertas.

O que você pode esperar do workshop?

  • Uma breve apresentação da visão coletiva de transformação para a região e as principais opções estratégicas possíveis para alcançá-la
  • Dinâmicas criativas e espaços de troca em grupos sobre experiências reais de transformação
  • Conversas abertas sobre desafios, oportunidades e conexões-chave

🗓️ 2 de junho | 🕐 12h00 (GMT-3) 📝 Inscreva-se: https://forms.gle/K5iv4RzRu1Wbm39j6

Boletín Informativo

Boletim Informativo Hub LAC – maio 2026