História de Mudança: Cuidando de quem cuida, o Programa de Saúde Mental SAME
Introdução
Nesta história de transformação, conversamos com Rommy Ríos, gerente da Fundação Baltazar e Nicolás, e Mardyori Curi, coordenadora do Programa de Saúde Mental SAME. Há 15 anos, a Fundação atua no Peru fortalecendo o vínculo afetivo e o apego seguro entre meninas, meninos e suas famílias. Diante da grave crise emocional evidenciada durante a pandemia, a instituição criou o Programa SAME, uma iniciativa preventiva que, desde 2021, acompanha mães e cuidadoras para transformar o esgotamento emocional em espaços de apoio e empatia.
Pontos-chave
A origem do Programa SAME: as descobertas alarmantes em 2019 da pesquisa ECIC-19 sobre o impacto da COVID na vida de meninas, meninos e suas famílias, que motivaram uma nova abordagem à saúde mental das famílias.
O modelo metodológico: Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT), trabalho em grupo vivencial e acompanhamento digital próximo.
A parceria com o Programa Nacional Cuna Más (MIDIS): articulação com serviços públicos regionais sem criar sistemas paralelos.
Resultados e histórias de alívio: redução do estresse, flexibilidade psicológica e o passo em direção a uma criação dos filhos com ternura.
Acesse a entrevista e a conversa completa.
Contexto e desafios
Durante a pandemia da COVID-19, a Fundação Baltazar e Nicolás, em parceria com a Pontifícia Universidade Católica do Peru e a Associação Copera Infancia, promoveu a Pesquisa Contínua de Impacto da COVID (ECIC-19) para compreender as preocupações das famílias em relação ao cuidado e à atenção às crianças. Os resultados revelaram uma realidade crítica: mais de 80% das mães, pais e cuidadores apresentavam altos níveis de estresse e ansiedade, acompanhados por um aumento acentuado na sensação de solidão durante a criação dos filhos.
A pesquisa demonstrou que, no Peru, quando a saúde mental do adulto está em risco, aumentam as práticas inconsistentes e os métodos disciplinares que envolvem violência: aproximadamente 45% dos cuidadores recorrem a gritos e 20% ao castigo físico ou psicológico.
O modelo do Programa SAME: cura em comunidade e com carinho
Diante dessa necessidade, em 2021 surgiu o Programa de Saúde Mental SAME com o objetivo de colocar o cuidador no centro da atenção. O programa é fundamentado na Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT), uma abordagem clínica voltada para o desenvolvimento da flexibilidade psicológica. Em vez de lutar contra emoções como a frustração ou a sobrecarga, o SAME prepara as mães para acolher o momento presente e tomar decisões guiadas por seus próprios valores.
A metodologia é implementada por meio de pequenos grupos virtuais de 10 a 15 participantes, acompanhados por psicólogos voluntários. Ao longo de 10 sessões semanais de 90 minutos, as mães participam de oficinas vivenciais que rompem o isolamento e desmontam a culpa materna. O acompanhamento é complementado de forma acessível pelo WhatsApp, com infográficos lúdicos, reflexões e ligações de acompanhamento individualizadas. Além disso, as cuidadoras aprendem a técnica “A.M.A.R.”, uma ferramenta prática para fazer uma pausa consciente, autorregular-se e oferecer apoio emocional em momentos de sobrecarga.
“Nossas mães e cuidadoras, em geral, se curam em comunidade […] O simples fato de se ouvirem umas às outras e dizerem ‘Olha, o que está acontecendo com você também acontece comigo, não é? Isso também acontece comigo.’ Realmente, para elas internamente, no mundo interior que estão vivendo, isso quebra o estigma e, ao mesmo tempo, cria um belíssimo senso de pertencimento, não é?”, explica Mardyori Curi.
Principais mudanças e transformações nas famílias
As avaliações de impacto do programa refletem mudanças profundas no bem-estar familiar. Nos relatórios mais recentes da intervenção, cerca de 90% das participantes reduziram ou mantiveram seus níveis de estresse e ansiedade, enquanto 60% fortaleceram suas capacidades pessoais de lidar com o estresse. No trabalho conjunto com o Programa Nacional Cuna Más em Arequipa, aproximadamente 83% das cuidadoras desenvolveram maior flexibilidade psicológica, ou seja, a capacidade de autorregulação.
No dia a dia, esses avanços transformam o que a equipe denomina de “clima emocional” do lar, substituindo reações impulsivas por pausas, abraços e momentos de brincadeira. “A saúde mental de uma mãe é como o clima emocional dentro de casa. Se uma mãe vive sob uma tempestade constante […] é muito difícil evitar que esse clima afete diretamente a criação dos filhos, o vínculo e as interações”, destaca Mardyori Curi.
Por trás dos números, há histórias de profunda cura pessoal. Ana María, participante do projeto-piloto de 2021, compartilhou ao concluir suas oficinas: “Percebi que a maternidade não é perfeita e senti um enorme alívio ao ver que não estava sozinha”. Outra mãe em Arequipa contou como o programa a ensinou a olhar para si mesma com compaixão e a compreender que precisava cuidar de si mesma primeiro para poder cuidar adequadamente de seu filho. “Nada do que se propuser pensando na criança vai funcionar se não tivermos adultos não apenas sensíveis, mas também acolhidos, compreendidos e ouvidos para, justamente, fazer com que esse fardo não seja tão pesado”, afirma Rommy Ríos.
Ampliação, parceria pública e olhar para o futuro
Desde sua concepção, a Fundação Baltazar e Nicolás decidiu não criar um sistema paralelo, mas unir forças com a rede pública existente. Por isso, estabeleceu uma parceria com o Programa Nacional Cuna Más do Ministério do Desenvolvimento e Inclusão Social (MIDIS), demonstrando, em um projeto-piloto em Arequipa e Cusco, que cuidar da saúde mental das mães melhora diretamente as interações com as meninas e os meninos. Graças a esses resultados, o projeto venceu a primeira rodada de inovação social do MIDIS para ampliar seu alcance dentro do programa estatal.
A proposta também se destaca por sua alta relação custo-benefício e escalabilidade, combinando o ambiente virtual com um modelo de voluntariado em psicologia que apresenta alta fidelização e zero rotatividade.
Paralelamente, como resultado do trabalho de advocacy que a Fundação promove por meio dos resultados da ECIC e de sua intervenção em saúde mental, conseguiu-se que o Ministério da Educação incluísse nas equipes de saúde escolar psicólogos capazes de ajudar mães, pais e cuidadores nas orientações fundamentais sobre a criação dos filhos. A visão para o futuro prevê a ampliação gradual da metodologia SAME, colocando-a à disposição dos profissionais que atuam na primeira infância para que ela complemente os serviços relacionados ao atendimento à primeira infância.
Histórias de Mudança: Inteligência artificial para a produção de evidências: a experiência da Evidencia UC no Chile
Introdução
Nesta História de Mudança, conversamos com Luis Ortiz, coordenador da equipe Evidencia UC da Faculdade de Medicina da Pontifia Universidade Católica do Chile. A equipe da Evidencia UC está vinculada principalmente à Cochrane Chile no que se refere às diretrizes para a realização de sínteses de evidências. Ao longo de sua trajetória, participou do apoio a diferentes atores na produção e disponibilização de evidências para subsidiar a tomada de decisão, como a Organização Mundial da Saúde (OMS) e a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS). Além disso, desenvolve atividades dentro da universidade, apoiando diferentes equipes quando necessitam de evidências para seus projetos ou para a tomada de decisões clínicas no hospital universitário.
Pontos-chave:
A trajetória da Evidencia UC no uso de inteligência artificial para a produção de evidências.
Um caso prático de aplicação de IA em um projeto de síntese para políticas públicas.
As mudanças geradas nos processos de busca, sistematização e produção de evidências.
Reflexões sobre supervisão humana, transparência e uso responsável da IA.
Acesse a entrevista completa em nossa playlist no YouTube.
Contexto e desafios
A equipe da Evidencia UC explora o uso de ferramentas de inteligência artificial há vários anos, inclusive antes da popularização dessas tecnologias. Sua proximidade com a plataforma Epistemonikos, surgida dentro da própria equipe quando ela ainda se chamava ProSABE, também fortaleceu sua experiência no uso de IA para a busca de evidências.
Ao longo do tempo, diferentes ferramentas foram incorporadas em distintas etapas da síntese de evidências, sempre com supervisão humana, especialmente nos primeiros anos, quando as capacidades dessas tecnologias ainda estavam abaixo do padrão humano.
A síntese de evidências com inteligência artificial: um projeto piloto e seus aprendizados coletivos
Em 2025, um projeto liderado pela equipe de Medicina Familiar da UC foi selecionado em uma chamada do Centro de Políticas Públicas da UC para desenvolver propostas voltadas ao fortalecimento das ações preventivas na atenção primária à saúde no Chile. O estudo buscava enfrentar a lacuna existente entre os processos de rastreamento e o acompanhamento dos pacientes identificados, combinando trabalho de campo e revisão das evidências disponíveis.
Para apoiar essa segunda etapa, a equipe da Evidencia UC foi incorporada ao projeto. Diante do tempo limitado e das restrições de recursos humanos e financeiros, optou-se por desenvolver um documento de síntese fortemente apoiado por inteligência artificial. A proposta metodológica não buscava substituir as pessoas, mas manter a supervisão humana em todas as etapas e reorganizar o processo tradicional de síntese para torná-lo mais eficiente.
Luis explica o processo da síntese em sete etapas com o uso de ferramentas de IA:
Etapa 1 — Formulação da pergunta e dos critérios de elegibilidade
Etapa 2 — Busca de “artigos-semente”
Etapa 3 — Expansão por citações
Etapa 4 — Estratégia de busca em bases de dados eletrônicas
Etapa 5 — Triagem assistida por IA
Etapa 6 — Triagem humana
Etapa 7 — Extração de dados e síntese
Em termos de validação dos processos, a equipe desenvolveu uma planilha de trabalho chamada VERIFICA, em que cada letra corresponde a uma etapa de verificação dos resultados produzidos pela IA. O primeiro passo é verificar se as referências são reais — algo tão simples quanto clicar na referência fornecida e conferir se ela leva ao artigo correspondente. Em seguida, é necessário verificar se esse artigo possui uma versão mais atualizada, já que algumas ferramentas podem ter sido treinadas com conjuntos de conhecimento mais antigos.
“Classificar uma ferramenta como melhor ou pior é muito difícil, porque uma ferramenta pode ter um corpo de conhecimento mais limitado, mas acadêmico, e funcionar melhor do que outra com uma base muito mais ampla, porém não acadêmica. Sempre vai depender da base de dados que elas analisam”, explica Luis.
Principais mudanças e avanços decorrentes da experiência
Segundo Luis, um dos principais benefícios dessa abordagem foi a redução significativa dos tempos de trabalho. Enquanto um resumo para políticas públicas costuma levar entre três e seis meses para ser produzido, esse tipo de síntese exploratória apoiada por inteligência artificial pôde ser desenvolvido em apenas quatro semanas.
A experiência também permitiu incorporar novas ferramentas em projetos posteriores. Em uma revisão encomendada pela OMS, por exemplo, a inteligência artificial foi utilizada para ampliar a busca de evidências em um tema particularmente complexo, no qual era muito difícil construir uma estratégia de busca, já que os manuscritos estavam indexados de maneiras diferentes nas bases de dados.
Embora o padrão internacional para sínteses de evidências continue sendo a revisão tradicional com dupla avaliação humana, Luis destaca que essas ferramentas de contexto têm se mostrado especialmente úteis para ampliar as buscas e localizar estudos mais difíceis de encontrar.
Cuidados éticos e supervisão humana
Luis destaca que uma das principais precauções adotadas foi complementar o uso da inteligência artificial com buscas e processos de triagem tradicionais. Essa estratégia permitiu identificar artigos que não haviam sido encontrados pelas ferramentas de IA e aumentar a confiança de que documentos relevantes para informar a tomada de decisão não estavam sendo omitidos.
As sínteses realizadas exclusivamente com inteligência artificial ainda podem deixar de fora estudos importantes. Por isso, a abordagem adotada combinou as vantagens da IA com a supervisão humana em todas as etapas do processo, incorporando ciclos tradicionais de busca e revisão para minimizar o risco de omissão de evidências que poderiam influenciar decisões, especialmente no âmbito das políticas públicas.
“O básico é declarar o uso da IA. Em todas as nossas reuniões, em todas as entregas para os diferentes atores, nas reuniões de priorização, explicamos como era o processo e indicamos que ele era fortemente impulsionado pela inteligência artificial. Também deixamos claro que tivemos o cuidado de manter supervisão humana em todas as etapas.”
Mudanças de mentalidade e do ecossistema
Para Luis, a experiência representou uma mudança importante para a equipe, pois ajudou a reduzir as resistências em relação ao uso da inteligência artificial na síntese de evidências. O projeto demonstrou que essas ferramentas podem ser utilizadas de forma segura quando acompanhadas de supervisão humana, acelerando processos sem comprometer a qualidade do trabalho.
Além disso, ele ressalta que a experiência também está alinhada às mudanças que vêm ocorrendo em organizações como a Cochrane, que já promove iniciativas para avaliar o uso da inteligência artificial na atualização de revisões sistemáticas. Atualmente, alguns grupos têm a possibilidade de desenvolver revisões tanto por métodos tradicionais quanto com apoio de IA, permitindo comparar resultados e gerar evidências sobre o potencial e as limitações dessas ferramentas.
Por outro lado, Luis também destacou que o contexto institucional tem favorecido essa adoção, uma vez que atores como o Ministério da Saúde do Chile, a OMS, a OPAS e a própria Cochrane vêm explorando cada vez mais o uso da IA na produção e atualização de evidências. Nesse cenário, a equipe se sente hoje mais confortável em incorporar essas ferramentas em projetos tradicionais, aproveitando suas vantagens para complementar — e não substituir — os métodos convencionais de síntese de evidências.
Nesse ponto, Luis complementa:
“Embora seja uma iniciativa que surgiu dentro da equipe da Evidencia UC, o ambiente tem sido favorável e somos gratos por isso — por haver abertura para inovar, explorar, errar e tentar novamente. Neste momento em que tudo ainda é muito incipiente e cercado de dúvidas, se não começarmos a testar essas ferramentas, continuaremos com as mesmas incertezas. Precisamos resolvê-las em contextos reais.”
Fontes externas
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